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Acidente Vascular Cerebral


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Imagem do mito de Prometeu citado no texto




"Pobre humanidade! Uma gota de sangue a mais ou a menos, em nosso cérebro, pode tornar extremamente miserável e dura a nossa vida, de tal modo que sofremos mais com essa gota do que Prometeu com seu abutre. O mais terrível, porém, acontece quando não se sabe que essa gota é a causa. E sim “O Diabo” ou 'o pecado’’'.



Neste segundo texto da série de Nietzsche e Neurologia trago um trecho do livro Aurora, em que Nietzsche, para fazer uma crítica ao projeto moralista, incapaz de perceber como nos encontramos irremediavelmente entrelaçados aos processos orgânicos, disserta de maneira lúcida e tanto quanto dramática sobre uma doença neurológica muito prevalente naquela época e, ainda mais nas últimas décadas, após o envelhecimento populacional, o AVC.


Também conhecido como acidente vascular cerebral ou encefálico, que origina as conhecidas siglas AVC ou AVE, popularmente é chamado de “derrame”. Termo que não é tecnicamente adequado por trazer a imagem de algo derramando-se, geralmente o sangue. E por que digo que não é tecnicamente adequado? Este termo nos remete ao AVC hemorrágico, no entanto nem todo AVC é hemorrágico, eles também podem ser isquêmicos.


A diferença entre o AVC isquêmico e hemorrágico é que, no primeiro, por uma obstrução do vaso o sangue não consegue seguir irrigando determinadas regiões do cérebro. Já no segundo, o que acontece é um extravasamento do sangue através do vaso. Em ambas as situações existe uma agressão ao cérebro, causando lesões e consequentemente, possíveis sequelas. Gosto de fazer uma analogia ao fluxo de água dentro de uma mangueira e uma bolinha de gude, nesta situação imaginemos a água passando pela mangueira, o que aconteceria se colocássemos uma bolinha de gude dentro da mangueira com o seu exato diâmetro? A água interromperia seu fluxo e não atingiria o seu destino. Na segunda situação, imagine que a mangueira está furada, o que aconteceria com a água que passa por dentro dela? Derramaria para fora. Nesta analogia, a mangueira seria o vaso sanguíneo, a bolinha de gude seria o que denominamos de trombo ou êmbolo.


Voltemos ao texto do Nietzsche, de forma poética ele traz uma comparação entre o sofrimento do indivíduo que teve um AVC e o sofrimento de Prometeu. No mito, o herói foi punido por Zeus por ter presenteado a humanidade com o fogo roubado dos Deuses. Zeus fez com que Hefesto acorrentasse Prometeu a um penhasco com corrente inquebráveis e chamou um abutre para que a ave todos os dias fosse ao penhasco comer o fígado do Herói. A tortura de Prometeu durou milhares de anos, pois ele tinha um corpo imortal que se regenerava a cada dia.


Como eu disse anteriormente, de forma bela e poética, mas também dramática, Nietzsche faz a comparação do dano orgânico que os homens podem sofrer com o mito de Prometeu, mas será que todo AVC é essencialmente torturante? O dano e a sequela que um AVC irá causar ao paciente dependerá da localização no cérebro, extensão e até mesmo do perfil do indivíduo. Portanto, apesar de nem todo AVC ser necessariamente desastroso, trata-se de uma doença potencialmente grave e com sintomas variados. Os mais comuns são perda localizada de força e alteração da fala, mas o AVC também pode se manifestar apenas com alterações visuais, cognitivas ou sensitivas.


Para concluirmos este texto da série vamos retomar a um ponto do último texto, a morte de Carl Ludwig Nietzsche, o pai de Friedrich Nietzsche. No texto anterior, eu havia comentado que o pastor Carl havia falecido aos 36 anos, após a instalação de uma doença misteriosa, que evoluiu de forma rápida e progressiva, em apenas 9 meses. Existe uma suspeita, não confirmada, de que o pai de Nietzsche possa ter apresentado episódios de AVC neste período de adoecimento, o que se sabe é que na autópsia de Carl Ludwig Nietzsche foi visto um “amolecimento” de 1/4 do cérebro dele, fato compatível, entre outras doenças, com o AVC.


Ainda falaremos do processo final de adoecimento de Nietzsche, mas já vou adiantar neste texto um fato curioso e importante para o raciocínio diagnóstico do mal que acometeu Nietzsche. Nos últimos dias do filósofo, temos fotos que mostram claramente uma postura hemiparética à esquerda. O que é isso? Nietzsche assumiu uma postura assimétrica em que o antebraço e punho esquerdos estão fletidos com o braço aduzido sobre o tronco, ou seja, o braço e antebraço esquerdo de Nietzsche estão dobrados e justos sobre o tronco.



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Postura Hemiparética de Nietzsche ao fim da vida.



No exame neurológico, isso nos diz algo com uma relativa certeza, a de que alguma lesão existia no lado direito do cérebro do filósofo. Seria um AVC? Mais alguma doença poderia causar isto? Nos próximos textos vamos explorar mais um pouco este diagnóstico. Por enquanto sabemos que Nietzsche possuía crises de enxaqueca e assumiu uma postura hemiparética ao fim da vida. Isso começa a nos guiar para algum diagnóstico?

 
 
 

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