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Criatividade: nuances do cérebro. As interferências da ansiedade, depressão e TDAH na criatividade


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Salvador Dali e seu experimento


‘’1. Sente-se ereto em uma poltrona com braços.

2. Segure uma chave de metal pesada em sua mão.

3. Coloque um prato de metal de cabeça para baixo sob a mão que segura a chave.

4. Permita-se dormir. Quando isso acontecer, você soltará as chaves, que baterão no prato e produzirão um grande barulho.

5. Acorde e parabenize-se por ter conseguido uma microssesta.’’


Este passo-a-passo é a receita que o excêntrico pintor catalão Salvador Dali escreveu no seu livro 50 segredos mágicos para pintar (1951). O artista dizia que dessa forma ele se sentia psiquicamente revitalizado e assim melhorava o seu potencial criativo. Será que Dali tinha razão nisso, ou seria mais um comportamento conceitual que refletia sua arte e vida surrealista?


O Instituto do Cérebro de Paris da Universidade de Sobornne resolveu investigar o experimento do pintor, não tão original quanto parece, pois o famoso inventor da lâmpada elétrica Thomas Edison já fazia algo parecido antes de Dali. O experimento mostrou que a obsessão das mentes criativas de Dali e Edison por esta intuição no processo criativo fazia sentido.


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Cochilo de Edison


A pesquisa avaliou 103 participantes no seguinte experimento: Eles eram submetidos a um problema matemático que podia ser resolvido de duas maneiras, uma lógica explicita e outra implícita. Na lógica explícita, uma instrução os guiava para uma resolução óbvia e consequentemente para a resposta final. Já na lógica implícita, não havia nenhum comando ou instrução, se o indivíduo a identificasse, ele chegaria mais rápido ao resultado final. Descobrir a lógica implícita significava ter sido mais criativo na resolução do problema.


Esses indivíduos começavam o experimento fazendo alguns destes desafios, davam uma pausa de 20 minutos numa cadeira confortável, num ambiente silencioso e escuro, segurando um copo de metal na mão direita e eram orientados a relaxar e dormir. O que acontecia em seguida você já imagina, alguns dos participantes adormeciam e deixavam o copo cair. O barulho do copo se chocando contra o chão os acordava novamente. Após serem despertados eles voltavam a fazer os problemas matemáticos que haviam sido propostos.


Uma pausa no experimento para que eu possa orientá-los sobre como funciona o nosso sono. Ele respeita uma arquitetura específica que podemos separar em dois momentos principais, o sono não-REM e sono REM. O que nos interessa especificamente neste experimento é o sono não-REM, que é dividido em três fases N1, N2 e N3. Sendo mais específico ainda, vamos focar na fase N1 que é o primeiro estágio do sono, aquele momento em que você coloca a cabeça no travesseiro e lentamente faz uma transição entre vigília e sono. Neste momento o seu coração desacelera, a respiração fica mais tranquila, os músculos relaxam e as ondas cerebrais começam a modificar. Essa fase dura alguns minutos e é nela que seus pensamentos começam a ficar mais livres, suas ideias divagam livremente com pouquíssima restrição, fluindo entre uma e outra associação aleatória. Vamos denominar esse livre fluxo de ideias, por uma questão didática, de ‘’turbilhão de ideias”.


Voltando ao experimento, o que os pesquisadores observaram foi que os indivíduos que entraram na fase N1 do sono, deixando o copo cair e sendo acordados nessa fase do sono, resolveram mais rápido os problemas matemáticos do que aqueles indivíduos que não adormeceram ou que já iam direto para fases mais profundas do sono como a N2.


Dito isso, sabemos que o aumento do ‘’turbilhão de ideias’’ está provavelmente relacionado a criatividade. E de que forma isso acontece? Como se dá o processo criativo no cérebro? A cognição criativa envolve duas etapas essenciais, a criação de ideias e a avaliação dessas ideias. Existem circuitarias de neurônios específicas que atuam em cada uma dessas etapas, o Default Mode Network (na criação de ideias) e a Attention Task Network (na avaliação dessas ideias).


Falamos sobre o ‘’turbilhão de ideias’’ presente nesse momento particular entre a transição sono e vigília, no entanto alguns de vocês podem estar se questionando: ‘’esse ‘turbilhão de ideias’ acontece quando estou acordado, eu sinto!’’. É verdade, e ele tem um nome, o chamamos de ‘’mind wandering”.


Mind wandering é considerado um estado mental em que os pensamentos acontecem de forma espontânea, dinâmica, livres e com pouca restrição no fluxo. Recentemente, um grupo de neurocientistas americanos e canadenses fizeram uma publicação na Nature, uma das revistas mais conceituadas em ciência, propondo um dynamic framework (teoria) para explicar o fenômeno de Mind Wandering.


Nesta teoria, o Mind Wandering é compreendido como um membro da família dos pensamentos espontâneos, que contêm também sonhos e pensamentos criativos. Quando vamos realizar uma tarefa específica, como escrever um e-mail, fazer um trabalho de escola, resolver um problema, assistir uma reunião ou uma palestra, nosso cérebro ativa circuitarias específicas que nos tiram de modos mais livres do pensamento, como mind wandering e vai restringindo o nosso pensamento para aquela tarefa específica que precisamos sustentar nossa atenção. Em outras palavras, o cérebro precisa diminuir o “turbilhão de ideias” e manter o fluxo menos livre e mais restrito para que seja possível desenvolver essa tarefa específica. Este é um trabalho natural do cérebro, que algumas pessoas realizarão com mais facilidade do que outras.


A seguir vou expor um gráfico do artigo da Nature, mas antes disso gostaria de conceituá-los sobre alguns termos:


Deliberate constraints = restrições deliberadas --> são controladas por circuitarias específicas do cérebro que nos mantem focados em determinadas tarefas (Attention Task Network é uma dessas circuitarias).


Exemplo: quando estamos lendo um texto chato, entediante ou que não compreendemos bem, o nosso pensamento tende a ir para outro lugar. Quando isso acontece, a restrição diminui e consequentemente ocorre um aumento de ideias não relacionadas àquela tarefa. Com isso, dizemos: “oh não, preciso voltar meu foco e meus pensamentos para essa leitura!” e tentamos forçar essas circuitarias a restringir novamente o fluxo na tarefa específica


Automatic Constraints = restrições automáticas --> mecanismos independentes (internos ou externos) do controle cognitivo que atua nos mantendo restritos num tipo de informação específica.


Exemplo: quando você está estudando numa biblioteca e o voo de uma mosca tira sua atenção, ou quando situações emocionais/viscerais que trazem um conteúdo específico (você estudando com muita fome ou com vontade de ir ao banheiro). Essas situações automaticamente restringem o seu fluxo de ideias para um conteúdo específico, o voo da mosca ou a barriga roncando de fome.



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Grafico publicado no artigo: Mind-wandering as spontaneous thought: a dynamic framework. Nat Rev Neurosci. 2016


O gráfico mostra um espectro de “fluidez do pensamento que vai dos estágios mais livres como no sonho, passando por estágios menos livres como o Mind Wandering, seguido do Pensamento Criativo e por último graus mais restritos como pensamentos direcionados a uma tarefa específica ou ruminação e pensamentos obsessivos.


Afinal, o que é criatividade? Provavelmente, uma habilidade capaz de produzir ideias que são inovadoras e ao mesmo tempo úteis, com significado e apropriadas. O mecanismo intuitivo do processo criativo envolve:

1) a capacidade de gerar novas ideias, momento facilitado por restrições deliberativas e automáticas “fracas”, ou seja, estados espontâneos do pensamento bem livres como o mind wandering.

2) fazer uma avaliação crítica das ideias, momento que vai exigir uma restrição deliberativa e automática “forte” para sustentar a atenção na avaliação daquela ideia.


Todo esse discurso sobre criatividade tem uma implicação clínica, algumas condições psiquiátricas e neurológicas influenciam diretamente na capacidade criativa. Pessoas que possuem Ansiedade e Depressão possuem como uma das características semiológicas mais marcantes a presença de pensamentos obsessivos e ruminantes, o que faz com que suas mentes fiquem absortas em ideias fixas com temas específicos que geralmente estão ligados a conteúdos negativos e que trazem emoções desagradáveis. Consequentemente, estes pacientes estarão num estado mental pouco criativo, de ideias rígidas, com pouco fluxo e baixa capacidade de gerar novos conteúdos.


O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), uma condição neurológica muito comum tem uma tendência a manter o estado mental com um fluxo de ideias aumentado, não raramente denominado pelos próprios pacientes como “turbilhão de ideias”. Este estado mental mais próximo do mind wandering tenderia a favorecer a criação de novas ideias, ou seja, o primeiro passo para consolidação do processo criativo. No entanto, a partir do momento em que a ideia é gerada, ela precisa ser analisada criticamente por meio da restrição do fluxo de pensamento, situação que não é tão fácil para pacientes com TDAH. É muito comum ouvir de pacientes: “tenho muitas ideias e não consigo colocá-las em prática”, um dos motivos pode ser a explicação desse Dynamic Framework que comentei anteriormente. Eu digo um dos motivos, pois certamente não é o único, pacientes com TDAH também possuem um funcionamento particular de um sistema cerebral denominado Sistema de Recompensa que interfere em tomadas de decisões e consequentemente influencia no comportamento que gera o comentário “não consigo levar nada adiante”, no entanto esse é um tema pra outro texto. Os estudos, apesar de controversos tendem a mostrar que os pacientes com TDAH tem uma boa capacidade criativa.

Assim como o direito e a economia básicos são reivindicados para fazerem parte do conteúdo educacional básico de crianças e adolescentes, tenho a impressão de que noções básicas em neurociências também deveriam fazer parte do conteúdo educacional. Entender como o cérebro funciona, nos permite um conforto psíquico maior diante de situações que inevitavelmente todos, sem exceção, nos confrontaremos nos próximos anos.


Referências:

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Christoff K, Irving ZC, Fox KC, Spreng RN, Andrews-Hanna JR. Mind-wandering as spontaneous thought: a dynamic framework. Nat Rev Neurosci. 2016 Nov;17(11):718-731. doi: 10.1038/nrn.2016.113. Epub 2016 Sep 22. PMID: 27654862.


Girard-Joyal O, Gauthier B. Creativity in the Predominantly Inattentive and Combined Presentations of ADHD in Adults. J Atten Disord. 2022 Jul;26(9):1187-1198. doi: 10.1177/10870547211060547. Epub 2021 Dec 12. PMID: 34894845; PMCID: PMC9096579.


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Beaty RE, Benedek M, Silvia PJ, Schacter DL. Creative Cognition and Brain Network Dynamics. Trends Cogn Sci. 2016 Feb;20(2):87-95. doi: 10.1016/j.tics.2015.10.004. Epub 2015 Nov 6. PMID: 26553223; PMCID: PMC4724474.


 
 
 

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