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“O café ensombra o ânimo. O chá só é vantajoso na manhã.’’ Você sabe as particularidades da sua dor?


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Em meio à transformação urbana vivida na Europa pela Revolução Industrial, o bucólico vilarejo de Röcken da então Prússia (hoje Alemanha) na metade do século XIX parecia intocado. Ainda assim, toda ingenuidade daqueles campos verdejantes onde o pastor Carl Ludwig Nietzsche pregava seus cultos não estariam livres dos infortúnios que cairiam sobre a vida do pequeno Friedrich Nietzsche. Aos 4 anos, a criança seria brutalmente afrontada pela doença que se instalaria sobre o pastor de Röcken e também pai de Friedrich. Em apenas nove meses, Nietzsche veria o pai, com apenas 36 anos, ser consumido por uma desconhecida doença que o levaria a excruciantes dores de cabeça, vômitos, perda da visão, da fala e finalmente à morte. Certamente, para o pequeno garoto esses nove meses foram longos e extenuantes, como podemos perceber por um texto da tia, Franziska:


“As crianças certamente não entendem ainda a perda que sofremos através da morte prematura do bom pai, vivem ainda na sua inocência, ao menos Elisabeth e Joseph. Mas Friedrich, a quanto parece, já deve entender mais e, depois de tudo, me disse: ‘quanto eu seria contente se o nosso bom pai vivesse ainda’’’.


Gostaria de chamar a atenção para este episódio marcante da história da vida de Nietzsche, a morte do seu pai se deu aos 36 anos, por uma doença de apresentação e evolução rápida com declínio cognitivo e funcional marcantes. Nos textos futuros entraremos novamente neste assunto.


No ano 1861, aos 17 anos, o então adolescente inicia com sintomas que jamais o deixariam. Nietzsche começa a apresentar dores de cabeça intensas, associadas a vômitos, com duração de dias, que o impediam de dormir:


“Estas noites não consegui dormir por causa da dor, estou terrivelmente triste’’ um mês depois ele escreve: “agora estou verdadeiramente cansado destas dores de cabeça, não estão melhorando e retornam sempre”.


A suspeita é que Nietzsche sofria de enxaqueca, a seguir farei um raciocínio explicando o que entendemos sobre a enxaqueca atualmente e posteriormente como as dores podem ter influenciado na obra do filósofo.


A enxaqueca é uma doença que cursa com alterações vasculares e atividade inflamatória, manifesta-se no indivíduo em episódios que podem durar de 4 a 72 horas, tem início de um lado só da cabeça, são intensas, podem estar associadas a vômitos, incomodo com a claridade, barulho e cheiros. Na maioria das vezes é agravada pelo esforço físico. Pode ser acompanhada de sinais que antecedem a dor, denominados auras visuais (luzes que aparecem no campo visual antes da dor) ou parestésicas (alterações da sensibilidade da pele). Se não tratada, pode cursar com grande incapacidade, acometendo o indivíduo por vários dias do mês, mantendo-o praticamente inábil para atividades diárias. Durante e após as crises, os pacientes podem apresentar sintomas cognitivos como piora da atenção, da velocidade do processamento e até da memória.


Hoje sabe-se muito mais sobre a doença do que na época em que o filósofo de Röcken viveu. Entendemos que a enxaqueca pode ser bem controlada com o uso de alguns medicamentos e também compreendemos que ela é muito influenciada pelo ambiente e por hábitos de vida. Esta relação ambiental (alimentação, sono, atividade física, jejum, hidratação) do indivíduo com a enxaqueca pode ter influenciado Nietzsche na sua obra. Por exemplo, algumas pessoas desencadeiam episódios de dor quando tomam café ou comem chocolotate. Hoje, isto é claro e evidenciado, naquela época este conhecimento não era difundido e poderia ser adquirido apenas com uma observação minuciosa direcionada para o próprio corpo e as interações com o ambiente.


Na criação de sua obra, Nietzsche traz uma importante reflexão sobre a fisiologia, sob aspectos físicos (circulação de fluidos, digestão) e psíquicos (afetos, instintos, estímulos nervosos). O conceito de fisiologia para Nietzsche, portanto, extrapola o âmbito biológico, mas neste texto vou me referir apenas aos aspectos físicos. O filósofo alemão entendia que os hábitos repercutiam fisiologicamente no corpo por meio de um equilíbrio de forças e consequentemente, estes mesmos hábitos, interfeririam na potência máxima a ser alcançada por cada indivíduo.


A minha pergunta é: o quanto a enxaqueca como doença extremamente limitante, influenciada sensivelmente pelo meio que se vive e pelo alimento que se consome, pode ter influenciado Nietzsche a criar a sua obra e seus conceitos? Trago em seguida um texto do próprio Nietzsche, escrito no livro Ecce Homo que pode esclarecer melhor o meu questionamento:


“Uma refeição forte é mais fácil de digerir do que uma refeição leve. O primeiro pressuposto para uma boa digestão é que o estômago entre em actividade como totalidade. É preciso conhecer a grandeza do seu estômago. Pela mesma razão, devem desaconselhar-se as refeições aborrecidas, que eu chamo as festas sacrificiais interrompidas, as refeições na table d’hôte. – Nada de refeições intermediárias, nada de café: o café ensombra o ânimo. O chá só é vantajoso pela manhã. Pouco, mas forte; se é demasiado fraco, o chá é muito prejudicial e causa má disposição durante o dia inteiro. Cada um tem aqui a sua medida, muitas vezes entre limites multo estritos e delicados.”

O quanto a enxaqueca fez Nietzsche observar melhor interação do corpo com o ambiente e trazer isso pra sua obra, desenvolvendo este aspecto fisiológico da sua filosofia que não se limita ao simples controle de sintomas, mas para qualquer situação vivida pelo indivíduo.


A mensagem que gostaria de passar para indivíduos com enxaqueca é que tentem explorar ao máximo suas interações com o meio para entender o quanto elas interferem nos episódios de dor intensa e deixem de creditar todas as esperanças de melhora aos medicamentos. Vejam bem, o tratamento é um combinado de medidas que podem torná-lo mais eficaz, não estou dizendo que o medicamento não é necessário, no entanto estou dizendo que o acréscimo de medidas não medicamentosas (ajuste de ambiente) torna o tratamento muito mais potente.


Provavelmente, se Nietzsche tivesse acesso aos medicamentos de hoje, teria controlado as dores com mais facilidade, todavia, talvez não tivesse presenteado a humanidade com a obra que criou. Por enquanto, encerramos por aqui pois isso é tema para outro texto desta série, em que vou tentar explorar a relação do doente com a doença, situação importantíssima vivida pelo filósofo.




 
 
 

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